— Vagabunda! Sai do escritório agora! — a sogra invadiu nosso local de trabalho, sem saber quem realmente era o dono do negócio

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A reunião estava marcada para as dez da manhã. Anna chegou ao escritório uma hora antes para reler os documentos mais uma vez. A morte do pai é sempre difícil, e quando você passa a exercer temporariamente o cargo de diretora-geral de uma construtora que ele criou do zero, é ainda mais pesado. Nas três semanas após o funeral, ela quase não dormiu. Todas as noites acordava com a sensação de que não era capaz, de que não estava pronta, de que todos ao redor viam aquilo que ela mesma temia: uma impostora na cadeira do pai.


Na recepção já estavam os parceiros da região. Dois homens de fatos caros, mas com rostos pesados e marcados pelo álcool, acompanhados de um jovem advogado nervoso. Eles aguardavam a assinatura da renovação dos contratos de aluguel de equipamentos. Anna sabia: o pai trabalhava com eles havia cerca de dez anos, mas nunca confiava totalmente. “Não precisa fazer amizade com eles, Aня”, ele dizia. “Faça o trabalho e não coloque a alma nisso. Esses caras, se sentirem cheiro de dinheiro, entram até num esgoto atrás dele.”


Ela ajeitou o colarinho da blusa preta formal, respirou fundo e entrou na sala de reuniões. Paredes de vidro, uma longa mesa de carvalho escurecido e janelas panorâmicas voltadas para o rio. A vista sempre lhe dava força. A cidade despertava, caía a primeira neve. Anna sentou-se na cabeceira da mesa.


— Bom dia, Nikolai Ivanovich — cumprimentou ela o principal parceiro. — O senhor analisou o projeto?


Nikolai resmungou e olhou de lado para o advogado. Ele abriu a boca para falar, mas não chegou a terminar.


A porta se abriu com tanta força que o impacto da maçaneta na parede soou como um disparo.


— Eu vou te ensinar, sua vagabunda, a roubar marido dos outros! — uma voz aguda, histérica, invadiu a sala antes mesmo da mulher entrar por completo. — Achou que eu não ia descobrir? Achou que podia se enfiar no escritório e fazer o que quisesse?


Na recepção, a secretária Sveta apareceu tentando segurar a mulher pelo braço, mas ela era mais forte e mais agressiva. Vestia-se de forma rica, porém vulgar: casaco com estampa de leopardo, batom excessivamente forte, saltos finos que batiam agressivamente no chão.


Anna congelou. Era Nina Pavlovna, sua sogra.


Mas ela não a reconheceu. Ou melhor, não percebeu. Anna estava sentada na extremidade da mesa, e a luz da janela deixava seu rosto na sombra. Nina Pavlovna avançou direto contra a única mulher jovem que viu pela frente — a secretária Sveta.


— Em quem você colocou os olhos, sua desgraçada? — ela puxou o casaco no peito, como se fosse partir para o ataque. — No meu filho? No Dimochka? Ele paga gente como você com trocados, e você já está se achando esposa dele? Eu vou colocar juízo na cabeça dele! Aqui quem manda é meu filho, entendeu?


Sveta empalideceu e se encolheu contra a parede, tentando se proteger com as pastas.


— Eu… eu não sei do que a senhora está falando… Eu sou só a secretária…


— Ah, só a secretária? — Nina Pavlovna ergueu a bolsa como se fosse bater. — Secretária fica na recepção! O que você está fazendo na sala dele? Levando recados? Levando também à noite?


Nikolai engasgou com o café e se afastou em direção à janela. O advogado fingiu estar completamente absorvido pelo celular. Anna se levantou lentamente.


— Nina Pavlovna.


Sua voz saiu baixa, mas na súbita quietude da sala todos ouviram. A sogra virou-se. Por um segundo examinou o rosto da nora. Nele passou surpresa, depois irritação — e então, o mais perigoso de tudo, uma fúria ainda maior.



**Tradução e reescrita para o português (fluente e natural):**


— Ah, é você — Nina Pavlovna torceu a boca em desprezo. — Eu estava vendo alguma galinha sentada na cadeira do papai. O que você está fazendo traindo o meu filho? Não basta não ver o marido em casa, ainda vem ao trabalho dele para ficar olhando para outros homens? Olha só quantos tem aqui!


Nikolai Ivanovich engasgou de novo, ainda mais alto desta vez.


— São parceiros de negócios — respondeu Anna com um tom gelado. — Estamos em reunião. A senhora deveria se retirar.


— Eu me retirar? — Nina Pavlovna deu um passo à frente e bateu o dedo na mesa. — Essa mesa é do meu filho! Ele está aqui se matando de trabalhar por essa sua família, e você, uma oportunista, acha que pode mandar? Quem você pensa que é? Veio de um dormitório qualquer, se atirou no Dima e achou que ia subir na vida de graça? E ele, idiota, caiu! Mas eu te descobri. Eu sei tudo sobre você!


— O que exatamente a senhora sabe? — Anna contornou a mesa, entrando na luz. Não havia tremor na sua voz. Apenas um vazio frio e cortante por dentro. — A senhora sabe quem está negociando contratos de fornecimento agora? Sabe quantas pessoas vão ficar sem salário se esses contratos não forem assinados hoje? Sabe que o seu filho não tem nenhuma função na gestão desta empresa?


— Mentira! — Nina Pavlovna ficou vermelha de raiva. — O Dima era o braço direito aqui! Seu pai não teria conseguido nada sem ele! E agora que o seu pai morreu, você acha que pode ficar com tudo? Jogar o Dima de lado? Não vai conseguir! Vamos levar isso ao tribunal! Você vai acabar na miséria, sua vagabunda!


O escritório ficou completamente em silêncio. Sveta soluçava num canto. Os parceiros estavam paralisados, como estátuas. Anna olhou lentamente para todos, como se os convidasse a testemunhar.


— Conheçam — disse ela com calma, dirigindo-se a Nikolai Ivanovich — a mãe do meu marido. Nina Pavlovna. Pelo visto, ela confundiu este escritório com um zoológico. Peço desculpas por este circo.


Ela apertou o botão do interfone.


— Segurança, venham à sala de reuniões. Acompanhem a visitante até a saída.


Nina Pavlovna abriu a boca, mas não teve tempo de falar. Dois seguranças fortes já estavam na porta. Eles a seguraram pelos braços com firmeza, mas sem violência excessiva.


— Tirem as mãos de mim! — gritou ela, se debatendo. — Eu vou acabar com vocês! Sabem quem eu sou? Sou a mãe do diretor de vocês! Me soltem!


Mas já a estavam levando em direção ao elevador. Na porta, ela ainda se virou uma última vez e gritou tão alto que provavelmente foi ouvido em todo o andar:


— Você acha que é dona disso tudo? O dinheiro do meu filho comprou tudo isso! Ele vai te expulsar daqui, sua oportunista! Pode lembrar do que eu estou dizendo!


As portas do elevador se fecharam. O silêncio caiu de volta, pesado como concreto. Anna ficou um segundo olhando para as portas metálicas e então se virou lentamente para a mesa.


— Desculpe, Nikolai Ivanovich. Vamos continuar.


— Anya… — ele começou, mas ela já havia se sentado e aberto a pasta.


— Ponto sete. Renovação nos termos do contrato anterior. Aceitamos o preço de vocês, desde que garantam a retirada pontual dos equipamentos dos canteiros. No ano passado houve atrasos.


O advogado se mexeu nervoso, folheando os papéis. A reunião seguiu como se nada tivesse acontecido. Apenas os dedos de Anna, apertando a caneta, estavam brancos como gelo.


Quarenta minutos depois, a porta se fechou atrás dos parceiros. Anna ficou sozinha no escritório. Aproximou-se da janela e encostou a testa no vidro frio. A neve continuava caindo, flocos grandes sobre a orla, os carros e as pessoas que seguiam suas vidas sem imaginar o que acabara de acontecer ali dentro.


O rosto do pai surgiu em sua memória. Ele estava naquela mesma cadeira, fumando o cachimbo (os médicos tinham proibido, mas ele sempre ia até a janela achando que ninguém via) e dizia: “O Dima é um bom sujeito, Anya. Fraco, mas bom. O problema não é ele. O problema é a mãe dele. Ela suga ele a vida toda, como uma sanguessuga. Ele não é filho dela, é um bilhete para uma vida rica. Cuidado com ela, filha. Ela vai te engolir e nem vai perceber.”


Na época, Anna tinha ignorado. Achava que o pai exagerava. Achava que o amor resolveria tudo. Dima prometia que colocaria a mãe no lugar dela. Jurava que eles teriam a própria família. E no fim… no fim, Nina Pavlovna invadia seu escritório e a chamava de vagabunda na frente de parceiros de negócios.



Ela se sentou na cadeira do pai. Ainda havia ali o cheiro dele — tabaco, couro antigo e o perfume “Chypre”, que ela lhe dava todo dia 23 de fevereiro. Por um instante, pareceu ouvir a voz dele: “Não chora, filha. Não chora. Vai ficar tudo bem.”


Mas, pela primeira vez na vida, ela não acreditou nessa voz.


Anna não se lembrava de como saiu do escritório. As pernas a levaram até o carro, as mãos ligaram o motor. Ela dirigia pelas ruas cobertas de neve, e a cidade parecia estranha, irreal, como um cenário de filme onde ela estava interpretando o papel errado.


O apartamento a recebeu em silêncio. Um silêncio tão denso que o zumbido nos ouvidos parecia mais alto do que qualquer som. Anna largou o casaco direto no hall, foi até a cozinha e acendeu a luz. Sobre a mesa estava a xícara da qual Dmitri tinha tomado café de manhã. Ele sempre deixava a louça espalhada, nunca lavava nada. Anna reclamava, e ele sempre respondia com um gesto de desdém: “Minha mãe vem e arruma.”


Ela ficou parada por um momento, olhando aquilo.


No começo, eles moravam no apartamento alugado de Dima. Mas Nina Pavlovna aparecia todos os dias. Ora trazia borscht, ora passava roupa, ora simplesmente “vinha sentar e conversar”. Mexia nas coisas do armário, criticava os travesseiros de Anna (“Você dorme em espuma sintética? Tem que ser de pena!”), conferia a geladeira. Quando Anna reclamava, Dmitri apenas dava de ombros: “Minha mãe só quer ajudar. Não a magoe.”


Depois, o pai de Anna lhes deu um apartamento. Bom, de três quartos, em um prédio novo. Nina Pavlovna, ao saber, ficou em silêncio no início. Mas um mês depois apareceu com malas: “Vocês têm três quartos e eu estou sozinha num prédio velho. Dimochka, você não vai abandonar sua mãe, vai?” E Dimochka não abandonou.


E então começou o inferno.


Uma vida em comum em que a sogra se achava dona da casa. Nina Pavlovna se intrometia em tudo: como cozinhar, como educar (ainda não havia filhos, mas os conselhos já vinham), como se vestir, como falar com o marido. “Por que você está gritando com ele? Ele está cansado!”, “Por que não serviu comida para ele? Ele chegou do trabalho!”, “Por que você chegou tão tarde? Trabalho não é tudo, a família vem primeiro!”


Anna suportava. Por causa de Dima. Para evitar escândalos. Jogava-se no trabalho. O pai já estava começando a lhe passar os negócios, ensinando tudo. Ela absorvia cada detalhe. E quanto mais mergulhava na empresa, mais irritada Nina Pavlovna ficava. Via a nora escapando do seu controle.


— Resolveu virar homem? — ela sibilava. — Mulher tem que ficar em casa, ter filhos. E você fica vagando por escritório. Vai acabar deixando o Dima sozinho e ele vai te trair. Aí você vai ver.


— Dima é um homem adulto — respondia Anna. — Ele é responsável por si mesmo.


— Meu filho sempre vai estar sob a minha asa! — cortava a sogra.


O celular vibrou em cima da mesa. Anna voltou ao presente e olhou a tela. Dmitri.


O coração bateu forte e parou por um segundo. Ela atendeu.


— Alô.


— Aня — a voz do marido era fria, formal, distante. — O que você fez com a minha mãe?


Anna sentiu a respiração travar.


— Eu? O que ela fez? Dima, ela invadiu minha reunião, me chamou de vagabunda na frente dos parceiros, atacou a secretária. A segurança teve que retirá-la.


— Minha mãe disse que você a humilhou. Na frente de todos. Fez ela parecer uma idiota. Você tem ideia do que ela passou?


— E você tem ideia do que eu estou passando? — a voz de Anna falhou. — Meu pai morreu há um mês. Eu estou tentando segurar a empresa que ele construiu a vida inteira. E a sua mãe…


— Minha mãe não é uma estranha — ele a interrompeu. — E, aliás, Anna, precisamos conversar seriamente.


Ela ficou imóvel, sentindo o frio subir pela espinha.


— Sobre o quê?


— Vou passar aí hoje à noite para pegar minhas coisas. Vou ficar um tempo na casa da minha mãe. Precisamos pensar no que fazer daqui pra frente.


— Dima…


— E outra coisa: minha mãe está certa. Você está na empresa só temporariamente. Não se acomode na cadeira. Vamos entrar com pedido de divisão de bens.


A chamada caiu.


Anna ficou no meio da cozinha, segurando o telefone, olhando pela janela. A neve continuava caindo — lenta, constante, cobrindo a cidade com um manto branco e silencioso, escondendo tudo por baixo dele: a sujeira, a dor, a traição.



“Minha mãe vem. Minha mãe limpa. Minha mãe diz como se vive.”


Anna pegou a xícara e a lançou com toda a força contra a parede. A porcelana se estilhaçou em dezenas de pedaços, cacos brancos espalhando-se pelo azulejo da cozinha. Ela ficou ali, encarando os fragmentos, respirando com dificuldade. Nunca na vida tinha se permitido algo assim. O pai a tinha ensinado a se controlar, a aguentar os golpes, a não demonstrar fraqueza. Mas hoje não havia mais forças.


Ela se agachou e começou a recolher os cacos. Um deles cortou seu dedo, e o sangue surgiu imediatamente. Anna olhou para a gota vermelha se misturando com os fragmentos brancos e, de repente, começou a chorar. Chorava raramente, sempre considerava lágrimas um luxo que não podia se permitir. Mas agora elas vinham sozinhas, sem controle.


As lembranças a invadiram.


O primeiro ano dela com Dima naquele apartamento. Como ela era feliz organizando livros nas prateleiras, pendurando cortinas novas, escolhendo louças. Como eles dançavam juntos na cozinha ao som do rádio, ele a girava e ela ria. E então Nina Pavlovna chegou e disse: “Essas cortinas são tão pobres, Dimochka… sua mãe vai comprar umas decentes.” E Dima ficou em silêncio. E Anna se convenceu de que era apenas um detalhe, que não valia a pena brigar por cortinas.


Depois veio a reforma. Anna queria paredes claras, poucos móveis, leveza, ar. Nina Pavlovna trouxe seus próprios operários e trocou o papel de parede da sala por um dourado, cheio de arabescos ridículos. “Assim parece mais rico”, disse ela. Dmitri deu de ombros: “Minha mãe se esforçou, não a magoe.” Anna quase foi embora naquela época. Mas ele implorou, jurou que seria a última vez, que conversaria com a mãe.


Não conversou.


Anna se levantou, jogou os cacos no lixo e enrolou o dedo cortado num guardanapo. A campainha tocou na entrada. Ela estremeceu, olhando para a porta. Seria Dmitri? Ou a sogra voltando para acabar de destruir tudo?


Mas quem estava ali era Ilya. O irmão mais novo. Vestia uma jaqueta velha, botas sujas de barro, o gorro torto. Carregava uma sacola de compras.


— Oi, mana — disse ele, entrando sem esperar convite. — Eu pensei… você deve estar aí sozinha, sem comer nada. Trouxe umas coisas.


Ele foi até a cozinha, viu os cacos no lixo, os sinais no chão, os olhos inchados dela. Deixou a sacola na mesa, se aproximou e a abraçou. Forte, como só ele sabia fazer. Ilya era três anos mais novo, mas nesses momentos parecia mais velho.


— Já sei de tudo — disse ele, com a voz abafada. — O escritório inteiro está comentando. A Svetka chorou metade do dia no banheiro, contou como essa… como ela invadiu tudo.


— Você estava lá? — perguntou Anna, encostando o rosto no ombro dele.


— Eu estava na obra, lá ninguém escuta nada além de martelo. Voltei à noite, o pessoal me contou. Vim direto pra cá. O Dima ligou?


— Ligou — Anna se afastou e enxugou os olhos. — Disse que vai passar aqui para pegar as coisas. Vai entrar com pedido de divisão de bens.


Ilya assobiou, sentando-se num banco da cozinha e encarando-a.


— Esse cara é um lixo… E a mãe dele, então, foi fazer reconhecimento em campo? Achou que ia te testar, ver se você cedia? Achou que, sem seu pai, você ia cair fácil?


— Eu não sei, Ilya… Eu não sei mais nada. Só quero que isso acabe.


— Não vai acabar — disse ele com firmeza. — Eles não vão te largar. Agora, sem seu pai, vão te sangrar até o fim. Pra eles, você é só dinheiro. Um investimento. E que você é uma pessoa, que sente, que sofre… isso não importa pra eles.


Anna olhou para o irmão. Ele sempre fora assim — direto, duro, às vezes bruto. O pai dizia: “O Ilya é coração aberto, bom pra obra, não pra escritório. No negócio precisa de malícia, e ele passa por cima como um trator.” Ele trabalhava como mestre de obras, começava cedo e terminava tarde. Os operários gostavam dele porque ele era justo e não tinha medo de sujar as mãos. No escritório, quase não aparecia — odiava “os engravatados”, como chamava os gerentes.


— Você vai comer? — perguntou ele, abrindo a sacola. — Comprei umas almôndegas prontas, pão, leite, biscoito. Minha mãe diria que isso não é comida decente, mas não temos mãe, então vai isso mesmo.


Anna sorriu de leve. Ilya sempre mencionava a mãe deles, que tinha morrido quando ele tinha dez anos e Anna treze. Para ele, ela continuava viva na memória, e ele dizia “minha mãe diria…” como se ainda a ouvisse.


Eles comeram em silêncio. Anna quase não falou. Ilya também não insistiu.


— Ilya… — disse ela por fim. — Você viu o pai recentemente? Antes de…


— Vi — respondeu ele. — Uma semana antes de ele ser internado, encontramos na obra. Ele ficou olhando a alvenaria sendo feita, fumando. Depois disse: “Cuida da sua irmã, Ilya. Meu coração não está tranquilo. O Dima é até um bom sujeito, mas a mãe dele vai engolir a Aня e nem vai mastigar. Eles vão arrancar nossa empresa um do outro.”


Anna estremeceu. As mesmas palavras de antes, na sua memória.


— Ele também falou do testamento — continuou Ilya em voz baixa. — Disse que fez tudo do jeito dele. “Não me leve a mal, Ilya”, ele falou, “se algo parecer injusto. Fiz o que achei certo pra que estranhos não tomem conta do que é nosso.”


— Você sabe o que tem no testamento? — perguntou Anna.


— Não sei. E não quero saber — cortou ele. — Não quero nada disso, Aня. Eu tenho minhas mãos, eu me viro. Isso é tudo seu. Você trabalhou com ele, eu só fiquei de longe.


— Não fala assim — ela segurou a mão dele. — Você é da família. É nosso. E essa empresa é nossa, do pai.


A campainha voltou a tocar. Desta vez mais forte, insistente, como se alguém estivesse pressionando sem parar. Anna e Ilya se entreolharam.



— Eu abro — disse Ilya, levantando-se.


Mas Anna já estava indo em direção à porta. Ela sabia quem era.


Dmitri estava no limiar. Casaco caro, cachecol, cabelo bem arrumado. Um homem bonito, elegante, bem cuidado. Anna já tinha olhado para ele assim um dia, sem acreditar na própria sorte. Agora o via como um estranho.


— Veio buscar suas coisas? — perguntou ela friamente.


— Posso entrar?


— Entra.


Ele passou pelo hall e viu Ilya parado na passagem para a cozinha. Fez uma careta.


— O Ilya está aqui? Ótimo. Conselho de família, então.


— Você já não é família — rosnou Ilya. — Achei que você tinha ido embora.


— Vim resolver assuntos — Dmitri tirou o casaco e pendurou no gancho, como fazia há anos. — Aня, precisamos conversar. Sem plateia.


— O Ilya fica — disse Anna com firmeza.


Dmitri deu de ombros e entrou na cozinha. Olhou a mesa, as almôndegas, as xícaras.


— Você come como uma estudante. Podia pelo menos ir a um restaurante.


— Não estou com fome — Anna sentou-se à frente dele. — Fale.


Ele ficou em silêncio por alguns segundos, reunindo pensamentos.


— A situação ficou ridícula. Minha mãe se exaltou, sim. Mas você também não a poupou. Expôs ela na frente de todos. Ela é uma senhora, tem nervos frágeis.


— Ela invadiu minha reunião e me chamou de prostituta — lembrou Anna. — Eu deveria aplaudir?


— Você podia ter sido mais suave.


— Eu fui suave por cinco anos, Dima. Cinco anos suportando as suas invasões, as opiniões dela, as interferências na nossa vida. Hoje a suavidade acabou.


Dmitri suspirou, esfregando a testa. Anna conhecia aquele gesto bem demais. Ele sempre fazia isso quando estava encurralado.


— Tudo bem — disse ele. — Esquece. Vim por outro motivo. Precisamos decidir como vamos viver daqui pra frente.


— Você já decidiu. Veio buscar suas coisas.


— Não fui eu quem decidiu, foram as circunstâncias — ele a encarou. Havia algo parecido com dor nos olhos, mas Anna já não acreditava mais naquela dor. — Aня, entende… minha mãe vai me destruir se eu ficar. Ela vive dizendo que você não me valoriza, que só pensa no trabalho, que eu sou invisível pra você.


— E você explicou a ela que isso não é verdade?


— E você prova que não é! — explodiu Dmitri. — Onde você estava nos últimos seis meses? No trabalho! Você chegava quando eu já estava dormindo e saía quando eu ainda nem tinha acordado! Não existia família! Era escritório e um lugar pra dormir!


— Porque meu pai estava doente! — Anna elevou a voz também. — Porque eu estava tentando salvar a empresa enquanto ele estava no hospital! Você acha que foi fácil pra mim? Você alguma vez perguntou como eu estava?


— E você perguntou por mim? — Dmitri levantou e começou a andar pela cozinha. — Eu não sou um robô. Eu também precisava de esposa, não de chefe.


— Você podia ter ajudado! — Anna também se levantou. Ficaram frente a frente, como dois boxeadores. — Podia ter assumido alguma coisa! Mas preferiu ouvir sua mãe, que repetia que mulher serve pra ter filho, não pra tocar empresa!


— E ela está certa! — ele gritou. — Olha pra você! Quase trinta anos, sem filhos, sem marido, só uma empresa! Vai dormir com ela também?


Ilya deu um passo à frente, mas Anna o deteve com um gesto.


— Não — disse ela, baixa e firme. — Não fale assim.


Dmitri se acalmou tão rápido quanto explodiu. Sentou-se de novo e esfregou a testa.


— Desculpa. Eu me exaltei. Não quero brigar, Anna. Quero resolver isso civilizadamente.


— Resolver o quê?


— O divórcio. De forma amigável. Você fica com a empresa, eu fico com o apartamento e o carro. E o dinheiro que seu pai te deixou também dividimos. Pela lei, tenho direito.


— Qual apartamento? — Anna olhou para ele sem acreditar. — Meu pai comprou isso antes do casamento. Isso é meu bem particular.


— Prova — ele sorriu de canto. — Moramos aqui cinco anos, fizemos reforma, eu contribuí. O tribunal vai ver diferente.


— Você contribuiu? — Ilya não se conteve. — Você não fez nada aqui! Quem pagou tudo foi o pai dela! Quem te colocou no trabalho foi ele! Quem você é sem ele?


— E você quem é? — Dmitri respondeu de imediato. — Um mestre de obras fracassado que só sabe carregar tijolo!


— Ilya, não — Anna colocou a mão no ombro do irmão. — Dima, vai embora. Pega suas coisas e vai. Isso você resolve com advogados.


— Então é guerra? — Dmitri vestiu o casaco. — Tudo bem. Minha mãe não vai recuar. Vocês vão ver o que acontece quando mexem com a minha família.


Ele saiu para o hall e pegou rapidamente uma mala com algumas coisas. A porta bateu.


Silêncio.


Ilya sentou-se, cobrindo o rosto com as mãos.


— Desculpa, Aня… eu perdi a cabeça…


— Você falou a verdade — Anna passou a mão pelos cabelos dele. — Falou tudo certo.


— E agora? Ele não vai desistir. Eles querem a casa, querem a empresa… são gananciosos…


— Eu sei — interrompeu ela. — Eu sei, Ilya.


Ela olhou pela janela. A neve caía sem parar.


— Amanhã de manhã vamos ao cartório — disse ela. — Abrir o testamento do pai. Ele sabia de alguma coisa. Ele deixou isso preparado. Precisamos descobrir o que ele nos deixou… e como ele queria nos proteger.



Ela encostou a testa no vidro frio da janela. Atrás dela, o irmão permanecia em silêncio. À frente havia o desconhecido. Mas, pela primeira vez naquele dia longo e interminável, Anna não sentiu medo — sentiu raiva. E a raiva lhe dava força. A raiva dizia: você vai conseguir. Você não tem o direito de desistir.


O pai não construiu aquela empresa para que pessoas gananciosas e estranhas a despedaçassem.


Ela quase não dormiu naquela noite. Virava de um lado para o outro, encarava o teto, escutava os sons do apartamento vazio. Em algum lugar atrás da parede, uma televisão estava ligada; no andar de cima, uma criança chorava. Mas na vida dela havia apenas silêncio e uma dor surda que não passava, por mais calmantes que tomasse.


De manhã, levantou-se destruída. Ficou um longo tempo debaixo do chuveiro quente, tentando se aquecer, mas o frio já morava dentro dela — um frio que nenhuma água conseguia expulsar. Vestiu um terno azul escuro, o mesmo que usara no funeral do pai, prendeu o cabelo num coque apertado e se olhou no espelho por muito tempo. Olhos inchados, sombras profundas. Parecia uma soldada antes da batalha — exausta, mas pronta para ir até o fim.


Ilya passou para buscá-la às oito e meia. Estava incomumente sério, com camisa limpa e jeans escuros — sua versão “formal”, de um homem acostumado a macacões de obra.


— Pronta? — perguntou quando ela entrou no carro.


— Estou — respondeu ela. — Vamos.


O cartório ficava no centro antigo, num prédio de pé-direito alto e piso de madeira que rangia. Eles subiram ao segundo andar e esperaram na recepção, observando diplomas desbotados na parede e uma secretária entediada atrás do vidro.


A tabeliã, uma mulher idosa de rosto gentil e olhar firme, os recebeu. Ela conhecia o pai de Anna havia muitos anos.


— Meus pêsames, menina — disse ela, estendendo a mão. — Seu pai era um homem de valor. Confiável.


— Obrigada — respondeu Anna, sentindo um nó na garganta.


— Vocês querem abrir o testamento antes do prazo? — perguntou a tabeliã. — É possível, com justificativa. Seu pai deixou instruções para isso.


— Temos — disse Anna com firmeza. — Motivos muito fortes.


Ilya ficou ao lado, em silêncio, apertando o gorro nas mãos.


A tabeliã assentiu, abriu o cofre e retirou um envelope lacrado. Anna reconheceu imediatamente a letra do pai — grande, firme, inclinada. Ele quase não escrevia à mão, mas ali tinha se esforçado.


— O testamento foi feito há seis meses — explicou a tabeliã, abrindo o envelope. — Tudo está regular. Se estiverem prontos…


— Estamos — interrompeu Anna.


Ela começou a ler.


E então o mundo desabou.


Segundo a última vontade do pai, 51% da empresa “Stroyinvest” passavam para Ilya. O controle da empresa.


Anna não conseguia acreditar no que ouvia.


— O quê? — sussurrou Ilya, levantando-se. — Isso não pode estar certo.


Mas estava.


Para Anna, restavam 49% da empresa, o apartamento no centro e parte do dinheiro.


Ela ficou imóvel. Era como se tivesse sido apagada.


Ilya andava de um lado para o outro, exaltado:


— Isso é um erro! Eu não entendo nada disso! Ela que trabalhava com ele! Isso não faz sentido!


A tabeliã levantou a mão.


— Há mais uma coisa. Seu pai deixou uma carta.


Anna pegou o papel com mãos trêmulas. Era a letra dele.


E começou a ler.


“Meus filhos, Anya e Ilya…


Se estão lendo isso, significa que eu já não estou mais aqui…”


A voz dela falhou, mas ela continuou.


O pai explicava. Que queria protegê-la. Que via Dmitri e, principalmente, Nina Pavlovna como uma ameaça. Que se deixasse tudo com Anna, eles a destruiriam através de processos, manipulações e fraqueza emocional. Que Ilya era a “parede” — alguém impossível de ser dobrado por pressão ou manipulação. Que juntos eles manteriam a empresa viva. Que eram família. Que não deveriam se destruir.


Quando terminou, lágrimas desciam pelo rosto de Anna sem que ela percebesse.


— Papai… — ela sussurrou.


Ilya estava de costas, olhando pela janela, os ombros tremendo.


— Eu não vou aceitar — disse ele, a voz rouca. — Isso não é meu. É seu. Você que trabalhou com ele.


— Você vai aceitar — respondeu Anna com firmeza. — Foi decisão dele.


— Você não entende! — ele segurou as mãos dela. — Eu não sei lidar com isso. Eles vão nos destruir!


— Não vão — disse ela, enxugando as lágrimas. — Vamos juntos. Você será o dono, eu vou administrar. Como ele queria. Um protege o outro.


Ilya a encarou por um longo momento. Então, lentamente, assentiu.



— Certo. Mas, Aня, você é que vai mandar. Eu não sei jogar esses jogos. Eu fico com as obras, com os trabalhadores… o resto é com você.


Anna ia responder, mas a porta do cartório se abriu sem bater. Na entrada estava Nina Pavlovna. Atrás dela, Dmitri aparecia pálido e hesitante.


— Eu sabia! — gritou a sogra, invadindo a sala. — Eu sabia que vocês estavam tramando alguma coisa! Dima, olha! Estão dividindo tudo! Vão nos deixar de fora?


A tabeliã levantou-se imediatamente, franzindo o cenho.


— Senhora, quem é você? Isso é uma sessão privada. Saia imediatamente.


— Eu sou mãe do marido legal dela — disse Nina Pavlovna, apontando para Anna. — Tenho direito de saber o que está acontecendo!


— O seu filho não é herdeiro direto — respondeu a tabeliã, fria. — E este é um documento confidencial. Vou pedir que se retirem ou chamarei a segurança.


— Quero ver o testamento! — insistiu ela, avançando.


Num movimento brusco, Nina Pavlovna arrancou os papéis da mesa e começou a ler. Seu rosto primeiro empalideceu, depois ficou vermelho de raiva.


— O quê é isso? — gritou. — Um tal de Ilya? Um capataz? Cinquenta e um por cento para ele? E o Dima não ganha nada? Isso é fraude!


— Coloque isso de volta — disse Anna, levantando-se calmamente.


— Sua desgraçada! — a sogra jogou os papéis no chão. — Você manipulou tudo! Convenceu seu pai a tirar meu filho do jogo! Você acha que vamos aceitar isso? Você é uma oportunista!


— Cala a boca — rugiu Ilya, dando um passo à frente. — Quem você pensa que é para invadir aqui? Isso é nossa família! Nosso pai morreu!


— Ilya, não — pediu Anna, segurando o braço dele.


— Não! — ele continuou, furioso. — Eu fiquei cinco anos calado vendo você destruir minha irmã! Agora acabou! Saiam daqui! Os dois!


Ele encarou Dmitri.


— E você? Você é homem ou um covarde? Esconde atrás da mãe? Vergonhoso!


Dmitri permaneceu em silêncio, pálido.


— Vamos — disse ele por fim, baixo. — Mãe, vamos embora.


— Assim não! — gritou ela. — Isso não vai ficar assim! Vamos à justiça!


— Vão — respondeu Anna, fria. — Nos vemos no tribunal.


A porta se fechou atrás deles. O silêncio voltou, pesado.


A tabeliã suspirou.


— Seu pai sabia o que fazia, menina. Força.


Lá fora, a neve caía com mais intensidade. Ilya acendeu um cigarro.


— Desculpa, Aня… eu perdi o controle.


— Você fez o certo — disse ela, segurando o braço dele. — Ele teria orgulho de você.


Eles entraram no carro.


— E agora? — perguntou Ilya.


— Agora trabalhamos — respondeu Anna. — A empresa continua.


O telefone dela vibrou. Era Zinaida Stepanovna, a contadora antiga.


“Anna, preciso que venha cedo amanhã. Seu marido esteve aqui ontem exigindo documentos. Eu não dei. Mas encontrei algo. Não posso explicar por telefone. Por favor, venha.”


Anna mostrou a mensagem a Ilya.


— Isso não é bom — disse ele.


— Não — respondeu ela, olhando a neve. — Não é.


Na manhã seguinte, Anna chegou ao escritório antes do amanhecer. A cidade ainda dormia. Ela entrou no prédio vazio, acendeu as luzes e foi direto ao seu gabinete. O coração batia forte.


Zinaida Stepanovna já a esperava.


— Obrigada por vir, menina — disse a idosa, nervosa. — Eu não dormi a noite toda.


— Fale, como está — disse Anna, ajudando-a a sentar.


A contadora respirou fundo.


— Seu marido esteve aqui ontem exigindo relatórios do ano passado. Eu recusei. Ele ficou furioso, disse que mandaria em tudo. Tivemos que chamar segurança.


— Ele foi embora?


— Foi. Mas depois que saiu, eu revisei os documentos que ele queria.


Ela tirou uma pasta grossa da bolsa.


— Aqui. Veja isso.


Anna abriu.


— Há seis meses… grandes transferências saíram da conta da empresa. Quase um milhão. Para empresas fantasmas. Depois todas desapareceram.


Anna sentiu o sangue gelar.


— Assinatura do seu pai — acrescentou Zinaida.


— Mas… isso é impossível — murmurou Anna.


— Também pensei isso. Seu pai nunca faria isso. E veja a data — naquele dia ele estava internado.


Anna ficou em silêncio.


— Está dizendo que…?


— Que a assinatura pode ter sido falsificada — disse a contadora, firme. — E se for verdade, isso é crime.


Anna fechou os olhos por um instante.


Dmitri. Os relatórios. A raiva dele. As ameaças. Tudo começou a se encaixar como peças de um quebra-cabeça perigoso.


— Você chamou segurança quando ele veio? — perguntou ela.


— Sim. Mas ele já tinha ido embora.


— Obrigada — disse Anna. — Você nos salvou.


Ela ficou sozinha no gabinete, olhando os papéis.


Um milhão.


Dinheiro roubado da empresa do pai.


E agora ela sabia: a guerra tinha acabado de começar de verdade.



Ela ligou para Ilya. O telefone tocou bastante tempo até que, finalmente, ouviu a voz sonolenta do irmão.


— Anya? Por que você está ligando tão cedo?


— Vem ao escritório. É urgente. Eu encontrei algo.


— O que aconteceu?


— Vem, Ilyusha. É importante.


Cerca de quarenta minutos depois, Ilya entrou apressado no gabinete, despenteado, ainda com a mesma camisa do dia anterior — claramente não tinha dormido. Anya, em silêncio, estendeu os documentos.


— Olha.


Ilya leu devagar, analisando cada número. Depois levantou os olhos para ela.


— Isso é o Dima?


— Tudo indica que sim.


— Um milhão… — ele assobiou. — Esse desgraçado… Anya, temos que ir à polícia.


— Temos — concordou ela. — Mas primeiro eu quero falar com ele.


— Pra quê? Ele vai negar tudo, vai dizer que não pegou nada, que as assinaturas são verdadeiras.


— Vamos ver — disse Anya, apertando os lábios. — Liga pra ele. Diz que é uma reunião urgente sobre os projetos. Ele vai vir. Ele acha que está tudo bem encoberto.


Ilya quis discutir, mas ao ver o rosto da irmã, apenas assentiu e saiu para ligar.


Dmitri chegou uma hora depois. Entrou confiante, sem nem bater, com um ar arrogante. Ao ver Anya na mesa e Ilya perto da janela, sorriu de lado.


— Olha só quem temos aqui! Vocês me chamaram? Decidiram fazer as pazes? Ou vão me dar a casa sem tribunal?


— Senta, Dima — disse Anya calmamente, apontando a cadeira à sua frente.


Ele se sentou, cruzando as pernas, fingindo tranquilidade. Mas os olhos não paravam quietos, analisando tudo: o escritório, os papéis, o rosto dela.


— Então? O que querem?


Anya pegou uma folha da pasta e colocou diante dele.


— Reconhece isso?


Dmitri olhou rápido, depois leu com mais atenção. O rosto mudou imediatamente: primeiro ficou pálido, depois vermelho.


— O que é isso? — perguntou rouco.


— Ordens de pagamento, Dima. Um milhão de rublos. Com a assinatura do meu pai. Assinatura feita no dia em que ele estava internado com pressão alta.


Ele ficou em silêncio. Só a mandíbula se movia, tensa.


— Você roubou da empresa, Dima — continuou Anya, ainda com a mesma voz controlada. — Roubou do meu pai. De um homem morto. Você entende o que isso significa?


— Eu não roubei nada! — explodiu ele, levantando-se. — Isso não fui eu! Foi ele que assinou! Você está me acusando sem prova!


— Senta — disse ela baixo, mas com firmeza.


Ele sentou novamente, engolindo em seco.


— Provas vão aparecer. Uma perícia vai mostrar que a assinatura é falsa. Mas antes disso eu quero ouvir a verdade.


— Verdade? Não existe verdade nenhuma — murmurou ele, evitando o olhar dela.


— Dima — Anya inclinou-se para frente — nós vivemos cinco anos juntos. Eu te amei. Eu não me casei por dinheiro, você sabe disso. Eu confiei em você. Me diz a verdade. Você pegou esse dinheiro?


O silêncio se estendeu. Longo. Pesado.


Quando ele finalmente levantou os olhos, havia neles algo quebrado — medo, vergonha e, estranhamente, alívio.


— Peguei — disse ele.


Ilya deu um passo à frente, mas Anya o impediu com um gesto.


— Por quê? — perguntou ela.


Dmitri soltou uma risada sem humor.


— Você ainda pergunta? Seu pai nunca me respeitou! Me tratava como funcionário qualquer, não como genro. Eu queria trabalhar com ele, queria fazer parte do negócio, mas ele sempre dizia: “espera, Dima, a Anya vai assumir, a Anya vai aprender.” E eu? Eu era o quê? Nada? Eu também queria uma vida minha!


— E por isso você roubou? — perguntou ela em voz baixa.


— Não foi ideia minha — ele passou a mão no rosto. — Minha mãe disse que era pra guardar dinheiro, que vocês iam nos expulsar depois que ele morresse. Ela disse: pega enquanto dá. E eu peguei.


— Sua mãe disse… — repetiu Anya. — E você não pensou por conta própria nem uma vez?


— Eu não sei pensar sem ela! — explodiu ele. — Você acha que é fácil ser filho dela? Ela me criou me segurando pela mão o tempo todo. Eu dependo dela. Eu sempre dependi.


Anya olhou para ele e viu não o homem que foi seu marido, mas um menino assustado, preso numa dependência doentia. Patético. Quebrado.


— O que vai acontecer agora? — perguntou ele, mais baixo. — Você vai me denunciar?


— Não sei — respondeu ela honestamente. — Preciso pensar.


— Anya, me perdoa — ele caiu de joelhos. — Eu vou devolver o dinheiro! Eu trabalho o quanto for preciso! Só não me entrega pra polícia! Minha mãe não vai aguentar!


— Levanta — disse ela com nojo. — Não se humilhe assim.


Mas ele não levantou.


Nesse momento, a porta se abriu com força.


Nina Pavlovna entrou.


Mas não era a mesma mulher agressiva de antes. Estava sem maquiagem, abatida, olhos vermelhos, cabelo desalinhado. Nas mãos, um álbum velho e alguns papéis.


Ao ver o filho de joelhos, ela parou. Respirou fundo.


— Levanta, Dima — disse friamente. — Levanta agora.


Ele obedeceu lentamente.


Ela colocou o álbum na mesa.


— Eu sei de tudo — disse ela.


— E ainda assim ficou calada? — explodiu Ilya.


— Fiquei — admitiu ela. — Porque eu sou uma idiota. Porque achei que estava protegendo meu filho. Mas eu só o destruí.


Ela abriu o álbum. Fotos antigas: ela jovem, pobre, com o pequeno Dmitri no colo.


— Eu vim da miséria — continuou. — Você não sabe o que é não ter o que comer. Eu criei ele sozinha. Trabalhei em dois empregos. Eu ensinei ele a sobreviver.


Ela olhou para Anya.


— E quando ele te trouxe, eu achei que você era uma chance. Dinheiro. Segurança. Mas depois vi que você amava ele de verdade. E eu tive medo.


— Medo de quê? — perguntou Anya.


— De perder ele — sussurrou. — De ficar sozinha.


Ela colocou um envelope na mesa.


— Tem duzentos mil aqui. Não cobre o milhão, eu sei. Mas é tudo que tenho. Eu vou vender o que for preciso. Só não destrói meu filho.


Dmitri começou a chorar.


Anya ficou em silêncio. Tudo dentro dela fervia. Raiva, dor, exaustão.


Mas, no fim, só restou cansaço.


— Fiquem com o dinheiro — disse ela.


— Você não vai nos perdoar? — perguntou Nina.


— Não é sobre perdão — respondeu Anya. — É que isso não resolve nada.


Ela se levantou.


— Vão embora. E assinem amanhã a renúncia de qualquer reivindicação. A casa é minha. O carro é meu. A empresa é minha. E desapareçam da minha vida.


Dmitri olhou para ela sem acreditar.


— Você não vai me denunciar?


— Não. Mas se vocês voltarem a me procurar, eu entrego tudo à polícia.


Nina Pavlovna pegou o filho pela mão.


Na porta, ela se virou:


— Me perdoa, Anya… se conseguir.


— Vão — disse ela apenas.


A porta fechou.


Silêncio.


Ilya se aproximou e abraçou a irmã.


— Você está bem?


— Não sei — disse ela. — Acho que eu só… larguei tudo.


— Você fez o certo.


— Meu pai diria que eu fui fraca.


— Ele diria que você foi mais forte do que eles, porque soube parar.


Eles ficaram ali, olhando a neve cair e engolir as duas figuras que desapareciam na rua.


Depois de algum tempo, Ilya falou:


— E agora?


Anya olhou para frente.


— Agora… a gente trabalha.


Mas naquela mesma manhã, um novo problema já estava a caminho.



Ela ligou para o número de Ilya. Atenderam só depois de muito tempo, e então veio a voz sonolenta do irmão.


— Anya? Por que você tá ligando tão cedo?


— Vem para o escritório. Urgente. Eu encontrei uma coisa.


— O que aconteceu?


— Vem, Ilyusha. É importante.


Quarenta minutos depois, Ilya entrou disparado na sala, descabelado, com a mesma camisa do dia anterior — claramente nem tinha dormido. Anya, em silêncio, entregou os papéis a ele.


— Olha.


Ilya leu por muito tempo, examinando cada número, depois levantou o olhar.


— Isso é o Dima?


— Parece que sim.


— Um milhão… — ele assobiou. — Esse desgraçado… A gente precisa denunciar.


— Precisa — concordou Anya. — Mas primeiro eu quero falar com ele.


— Pra quê? Ele vai negar tudo, vai dizer que não pegou nada, que as assinaturas são verdadeiras.


— Vamos ver — disse Anya, apertando os lábios. — Chama ele aqui. Diz que é uma reunião urgente sobre os projetos. Ele vai vir. Ele acha que está tudo sob controle.


Ilya ainda quis discutir, mas, ao ver o olhar da irmã, apenas assentiu e saiu para ligar.


Dmitri apareceu uma hora depois. Entrou confiante, relaxado, sem nem bater na porta. Ao ver Anya na mesa e Ilya perto da janela, sorriu de lado.


— Que surpresa! Me chamaram? Fizeram as pazes? Ou vão me dar a casa sem processo?


— Senta, Dima — disse Anya com calma, apontando a cadeira.


Ele se sentou, cruzando as pernas, fingindo tranquilidade. Mas os olhos estavam inquietos, avaliando tudo: a sala, os papéis, o rosto dela.


— O que querem?


Anya pegou uma folha da pasta e colocou na frente dele.


— Reconhece isso?


Dmitri olhou rápido, depois leu de novo. O rosto dele mudou: primeiro ficou pálido, depois vermelho.


— O que é isso? — perguntou, rouco.


— Ordens de pagamento, Dima. Um milhão de rublos. Com a assinatura do meu pai. Que, como descobrimos, estava no hospital nesse dia com pressão alta.


Dmitri ficou em silêncio. Só a mandíbula dele se movia.


— Você roubou da empresa — continuou Anya, sem alterar a voz. — Você roubou do meu pai. De um homem morto. Você entende o que isso significa?


— Eu não roubei nada! — gritou ele, levantando. — Não fui eu! Foi seu pai que assinou! Você está me incriminando! Tem prova?


— Senta — disse ela baixo, mas com tanta firmeza que ele voltou a se sentar. — Provas vão aparecer. A perícia vai mostrar que a assinatura é falsa. Agora eu quero a verdade.


— Verdade nenhuma existe — ele desviou o olhar.


— Dima… nós vivemos cinco anos juntos. Eu te amei. Não me casei por dinheiro. Me diz a verdade. Você pegou esse dinheiro?


O silêncio se estendeu. Longo. Pesado.


Então ele ergueu os olhos. Havia medo. Cansaço. E algo como alívio.


— Peguei — disse finalmente.


Ilya deu um passo à frente, mas Anya o impediu com um gesto.


— Por quê? — ela perguntou.


Dmitri riu, mas foi um riso quebrado.


— Você ainda pergunta? Seu pai nunca me respeitou! Me tratava como funcionário, não como genro! Eu queria fazer negócios, ele só me ignorava. E eu? Eu era invisível!


— E por isso você roubou?


— Minha mãe disse que era pra juntar dinheiro, que você ia nos expulsar depois da morte dele. Ela disse: pega enquanto dá. E eu peguei.


— Sua mãe disse… — repetiu Anya. — E você não pensou por conta própria?


— Eu não sei pensar sem ela — ele explodiu. — Entende isso? Eu sou assim desde criança. Eu dependo dela. Sempre dependi.


Anya olhou para ele e viu não um homem, mas um menino quebrado.


— E agora? — ele perguntou. — Vai me denunciar?


— Não sei — respondeu ela honestamente. — Preciso pensar.


Dmitri caiu de joelhos.


— Por favor, Anya… eu devolvo tudo! Eu trabalho! Só não me entrega pra polícia! Minha mãe não vai aguentar!


— Levanta — disse ela, com desgosto.


Mas ele não levantou. Agarrou as mãos dela.


Ilya desviou o olhar, enojado.


Então a porta se abriu.


Nina Pavlovna entrou.


Mas não era a mesma mulher de antes. Sem maquiagem, rosto abatido, olhos vermelhos, cabelo bagunçado. Nas mãos, um álbum velho e alguns papéis.


Ela viu o filho no chão. Não disse nada. Apenas colocou o álbum na mesa e se sentou.


— Olá, Anya — disse baixo.


— Por que a senhora veio? — perguntou Anya.


— Levanta, Dima — disse ela seca. — Pare de passar vergonha.


Ele obedeceu e se afastou.


— Eu sei de tudo — disse ela. — Sei do dinheiro.


— E ficou calada? — explodiu Ilya.


— Fiquei — ela assentiu. — Porque sou uma idiota. Porque achei que era pelo bem dele. E agora vejo que o destruí.


Ela abriu o álbum. Fotos antigas: ela jovem, com Dmitri pequeno no colo, pobreza, cansaço.


— Eu cresci na miséria — disse ela. — Você não entende o que é isso. Eu só queria que ele tivesse uma vida melhor. E ensinei ele a pegar o que pudesse.


Ela respirou fundo.


— E quando você apareceu, Anya… eu tive medo. Medo de perder ele. Então comecei essa guerra.


Ela tirou um envelope do bolso.


— Aqui tem duzentos mil. Minhas economias. Eu vou vender tudo se precisar. Só não destrói meu filho.


Dmitri começou a chorar.


Anya ficou em silêncio. Cansada. Exausta.


— Fiquem com o dinheiro — disse ela por fim. — Eu não quero.


— Você não vai denunciar? — perguntou a mulher, tremendo.


— Não. Mas saiam da minha vida.


Dmitri assinou os papéis de renúncia dias depois e desapareceu.


Um ano passou.


A empresa continuou. Anya e Ilya trabalharam juntos e fizeram tudo crescer. Às vezes ela lembrava do passado como algo distante, quase irrelevante.


Até o dia em que ele voltou.


Doente. Fraco. Sem dinheiro. Sem nada.


E, contra todo o senso comum, ela decidiu ajudá-lo mais uma vez — mas mantendo distância.


Porque ele ainda era humano.


E isso, para ela, sempre pesava mais do que a raiva.



— E a mim, dá pra me dobrar? — perguntou Anya.


— Você? — Ilya riu. — Você não dá pra dobrar. Só dá pra quebrar. Mas você não quebra.


Eles ficaram em silêncio. Anya serviu mais chá.


— Ilyusha — começou ela com cuidado — você não se arrepende de ter ajudado o Dima?


— Não me arrependo — respondeu ele com firmeza. — E você?


— Eu também não. Embora às vezes pareça que fizemos algo errado. Que perdoar uma traição não pode ser certo.


— Isso não é perdão — disse Ilya, balançando a cabeça. — Não sei nem como chamar. É mais do que perdão. É quando você entende que a pessoa já é o próprio castigo. Ela vai lembrar disso a vida inteira, e isso é pior do que qualquer prisão.


Anya olhou para o irmão com surpresa.


— Virou filósofo, Ilyusha.


— Trabalhar com você — ele sorriu. — Ensina a pensar, não só a colocar tijolo.


O telefone tocou na entrada. Anya foi até lá e atendeu. Era Nina Pavlovna.


— Anyechka — a voz dela estava agitada, mas feliz — o Dima vai ter alta amanhã. Disseram que ele já está praticamente curado. Conseguiram um trabalho pra ele, não aqui, em outra cidade, mas um bom trabalho. Ele vai embora depois de amanhã.


— Isso é bom — respondeu Anya.


— Anyechka… eu queria te agradecer. Eu não sei como. Você salvou nossas vidas. A dele e a minha. Se não fosse você…


— Não precisa, Nina Pavlovna. Não precisa agradecer. Eu não fiz isso por gratidão.


— E por quê? — perguntou a mulher baixinho.


Anya ficou em silêncio, olhando a neve pela janela.


— Por mim mesma — disse ela. — Pra conseguir me olhar no espelho sem vergonha.


Ela desligou e voltou para a cozinha. Ilya a observava.


— Tá tudo bem? — perguntou ele.


— Tá — respondeu ela. — O Dima vai ter alta. Vai embora.


— Pra sempre?


— Pra sempre.


— Então pronto — suspirou Ilya. — Então foi o certo.


Eles ficaram ali, tomando chá, enquanto a neve caía lá fora. A mesma neve de um ano atrás, quando tudo tinha começado. Só que agora a casa estava quente, havia um irmão ao lado, e o futuro parecia uma vida que eles estavam construindo com as próprias mãos, sem conselhos alheios e sem a velha dor.


Anya pegou a foto do pai no armário e colocou sobre a mesa.


— Olha, pai — disse ela baixinho — está tudo bem. A gente conseguiu.


E ela teve a impressão de que a foto não mostrava apenas uma imagem, mas um homem vivo, querido, e que no olhar dele havia aprovação e amor.


— Pelo pai — disse Ilya, erguendo a xícara.


— Pelo pai — respondeu Anya.


O chá estava quente e doce. E lá fora a neve caía, limpa e branca.