Descobri a nossa reunião de 20 anos da escola por um antigo amigo, porque ninguém tinha se dado ao trabalho de me convidar – mas, no momento em que atravessei aquelas portas, percebi o porquê.

article img

Quando a minha melhor amiga mencionou casualmente a nossa reunião de 20 anos da escola, fiquei em choque. Toda a nossa turma sabia do evento havia meses — todos, exceto eu. Quase fiquei em casa. Depois entrei no salão de baile e vi exatamente por que ninguém queria que eu estivesse lá.


A luz da tarde filtrava suavemente pelas janelas amplas do meu estúdio de fitness, pintando faixas douradas no chão polido.

Sentei-me atrás da minha mesa, tomando café, observando alguns clientes alongarem-se perto dos espelhos.

Pela primeira vez em anos, senti-me completamente em casa na minha própria pele.


A campainha acima da porta tocou, e Alison entrou carregando dois copos de papel.

Naquele momento eu não sabia, mas aquela visita iria virar a minha vida do avesso.


“Imaginei que já tivesses bebido o teu terceiro café,” disse ela, pousando um copo à minha frente. “Mas trouxe-te outro mesmo assim.”

“Conheces-me bem demais,” respondi, a rir.


Ela sentou-se na cadeira em frente à minha, os olhos a percorrer as fotos na parede.

Havia imagens de antes e depois de clientes, reportagens em revistas e uma fotografia antiga das duas no último ano da escola.


“Meu Deus, olha para nós,” murmurou Alison. “Tu com aqueles óculos grossos. Eu com aquele permanente horrível.”


“Tu sempre tiveste o cabelo melhor do que eu,” disse, sorrindo com a memória. “E foste a única pessoa que se sentou comigo no almoço.”

“Alguém tinha de fazer isso. Aqueles miúdos eram monstros.”


Assenti, lembrando os sussurros nos corredores, os desenhos cruéis passados na aula, a forma como eu contava os minutos até ao último toque.


Nada disso doía como antes.

As feridas tinham-se tornado cicatrizes, e as cicatrizes tinham-se tornado prova de até onde eu tinha chegado.


“Tu salvaste-me naquela altura,” disse-lhe em voz baixa. “Acho que nunca te agradeci verdadeiramente. Mas salvaste.”

Alison abanou a mão, de repente ocupada com a tampa do café. “Tu salvaste-te a ti mesma. Eu só me sentei ao teu lado.”

“Mesmo assim conta.”


Ela olhou para mim, e por um momento a expressão dela mudou para algo que eu não consegui decifrar.

Depois piscou os olhos, e o sorriso voltou, fácil e brilhante.


“Chega de viver no passado. A reunião já é suficientemente má—” interrompeu-se de repente e mordeu o lábio.

“Reunião?” pouso lentamente a minha chávena.


“20 anos. Consegues acreditar?” riu-se baixinho. “Tu… tu vais?”

“Nem sabia disso.” Peguei no telemóvel.


Procurei na minha caixa de entrada, mas não encontrei nada.

Nem um email, nem uma mensagem, nem um convite reenviado por alguém.


“Ninguém me convidou.” Afastei o telemóvel.

Alison encolheu os ombros, o olhar a desviar-se para a janela. “Sabes como esses comités são desorganizados. Deve ser nada.”


“Provavelmente,” repeti.


Mas senti um pequeno nó a apertar-se no peito.


20 anos de distância, e eu finalmente tinha construído uma vida que amava.

Um estúdio.

Uma comunidade.

Um reflexo no espelho que eu conseguia encarar sem hesitar.


“Tu vais?” perguntei.


Alison riu. “Uh… não. Meu Deus, não. Essas reuniões são horríveis. Toda a gente fica bêbeda e gaba-se dos filhos e das casas.”


Recostei-me na cadeira. “Devo ir?”


“Honestamente, eu não me preocuparia. Para quê reabrir todas essas memórias más?”


Senti algo mexer-se no peito, uma pequena chama de desafio que eu pensava ter deixado para trás.


“Porque já não sou a miúda acima do peso, com aparelho e óculos grossos, Alison. Talvez me faça bem enfrentar os meus antigos agressores com o meu sucesso.”


Ela soltou um suspiro seco e pousou finalmente o copo. “Acredita em mim, não queres fazer isso.”

“Porquê não?”



“Porque estás a insistir tanto? Estou a tentar proteger-te.”

“De quê?”

“Deles. De te sentires outra vez como aquela rapariga.”


Inclinei a cabeça e olhei-a durante um longo momento.

Havia algo quase desesperado na voz dela.


“Talvez tenhas razão,” disse. “Talvez não seja uma boa ideia.”


O sorriso de Alison voltou. “Não tens de provar nada a ninguém.”


Assenti.


Porque conhecia Alison bem o suficiente para perceber que havia algo que ela não estava a dizer.

O que eu não entendia era porquê.


“Talvez possamos jantar nessa noite?” perguntei. “A nossa própria reunião privada.”


Os lábios dela entreabriram-se, depois fecharam-se.


“Vou ver a minha agenda e digo-te, querida.” Pegou na mala e levantou-se, alisando a saia com mãos que tremiam ligeiramente.


“Já vais?” levantei-me também.


“O trabalho tem estado caótico.”


Parou junto à porta, de costas para mim.


Por um segundo, pensei que ela se viraria e me diria a verdade.


Mas em vez disso abanou a cabeça e forçou um sorriso por cima do ombro. “Vemo-nos na segunda, no nosso café de sempre.”


A porta fechou-se com um clique, e fiquei sozinha no silêncio do meu estúdio.


Algo estava errado.


Eu tinha sentido isso no momento em que ela deixou escapar a reunião, e agora sentia ainda mais forte.


Alison não estava a tentar poupar os meus sentimentos.

Ela estava a tentar manter-me afastada de algo.


E se ela não ia dizer-me o que se passava, então eu teria de descobrir sozinha.


Procurei o site da reunião.


E o que vi ali provou imediatamente que o comentário dela sobre eu ter sido excluída por desorganização estava errado.


Quem quer que tivesse organizado a reunião tinha feito tudo em grande.


O site tinha fotografias profissionais, horários detalhados, crachás personalizados e registo de confirmações.


Percebi tudo de uma vez: não tinha sido um acidente eu não ter sido convidada.


Alguém não me queria lá.


E a Alison, que me tinha protegido durante todo o secundário, devia estar a tentar proteger-me outra vez de quem estava determinado a manter-me afastada.


Pensei na Tara, na Kelly, no Kyle, no Dylan e em todos os outros que me tinham feito bullying naquela época.


Será que um deles tinha organizado a reunião?


Que motivo poderia qualquer um deles ter agora, 20 anos depois, para me excluir?


A única forma de descobrir era comparecer.


Introduzi os detalhes do local no telemóvel e marquei a data no calendário.


O que quer que me esperasse naquele salão, eu ia entrar e enfrentar de frente.


Entrei no local da reunião nesse sábado com o coração na garganta.


A mulher na mesa de registo levantou os olhos.


Os olhos dela arregalaram-se quando disse o meu nome.


“Oh.” Olhou para a prancheta. “Tu… tu estás aqui.”


Sorri. “Não devia estar?”


“Eu só—” olhou para a entrada do salão. “Esquece.”


Peguei no meu crachá e entrei no salão.


Dêi dois passos e congelei.


Uma longa mesa de boas-vindas estendia-se junto à parede da entrada, coberta por um tecido azul-marinho.

Atrás dela estava um enorme painel de cortiça, com quase dois metros, coberto de fotografias antigas do nosso último ano.


No centro estavam várias fotos minhas ampliadas.


Cada imagem tinha uma legenda escrita com marcador preto cuidadoso.


“Lenda da cantina”: eu aos 15 anos, a meio de uma refeição, com o aparelho a refletir o flash.

“Maior probabilidade de partir uma passadeira”: eu a tropeçar na aula de ginástica.

“A nossa tomate favorita”: eu a chorar atrás das bancadas, o cabelo ruivo exposto, um momento que eu nunca soubera que tinha sido capturado.


Olhei para o banner acima do painel.


E o que vi ali fez-me fraquejar.


“BEM-VINDOS DE VOLTA, TURMA DE 2004. ORGANIZADO COM AMOR POR ALISON.”


Li o nome dela duas vezes.


Depois uma mão agarrou o meu braço com força suficiente para deixar marca.


“Oh meu Deus, o que estás a fazer aqui?”



“O que é isto, Alison?” virei-me para ela.


“Tens de sair. Agora.” Ela puxou-me pelo braço, levando-me em direção às portas.


“Larga-me, Alison.” Enfiei os pés no chão. “Não saio daqui até explicares o que se passa.”


“Por favor. Estou a implorar-te. Este não é o teu lugar.”


“Não é o meu lugar?” repeti. “Engraçado. O meu rosto é o centro da exposição.”


Os olhos dela desviaram-se para o painel e voltaram para mim num instante.


“Isso não é o que pensas.”


“Então explica.”


“É nostalgia. É uma piada. Ninguém quer dizer nada com isto.”


“O teu nome está no banner, organizadora.”


Ela puxou-me mais forte. “Podemos por favor sair? Eu explico tudo no estacionamento.”


“Não.”


Um pequeno grupo perto do bar já tinha reparado.


Reconheci o Mark, o rapaz que costumava atirar bolas de papel à minha cabeça na sala. Ele parecia mais velho, mais suave.


Ele semicerrrou os olhos, depois sorriu.


“Espera. És tu, Simone?”


Assenti.


“Meu Deus. Estás incrível. Nem sabia que vinhas.”


“Não era suposto eu vir. A Alison não me convidou, certo, Alison?”


O rosto dela ficou vermelho como o meu cabelo.


O aperto dela no meu braço enfraqueceu ligeiramente.


“O que significa isto?” apontei para o painel. “Defendeste-me naquela altura, então porquê fazer disto uma piada? Onde arranjaste estas fotos?”


“Eu tinha-as,” sussurrou. “Dessa altura.”


“Guardaste isto. Durante 20 anos.”


“Toda a gente guarda coisas da escola.”


“Não coisas assim.”


O controlo dela ruiu mais um pouco.


“Tens de perceber,” disse, aproximando-se. “Eu não pensei que viesses, especialmente se eu dissesse que não vinha.”


“Para eu não descobrir que fizeste disto uma exposição de mim?”


Ela olhou em volta, percebendo quantas pessoas estavam a aproximar-se.


Soltou completamente o meu braço.


“Por favor,” sussurrou. “Vai embora. Falamos amanhã. Eu explico tudo. Somos amigas há 20 anos.”


Olhei para ela.


E pela primeira vez vi-a claramente.


“Não, Alison,” disse baixinho. “Não somos.”


O silêncio atrás dela cresceu.


“Porquê, Alison?” perguntei. “Diz-me a verdade.”


A expressão dela mudou.


A amiga assustada desapareceu, e surgiu algo mais frio.


“Porque olha para ti,” sibilou. “Achavas mesmo que podias entrar aqui como se pertencesse?”


“Eu pertenço.”


“Não, não pertences.” A voz tremia de algo pior do que raiva. “Tu eras a miúda ao meu lado. Aquela que eu defendia. Esse era o acordo.”


“O acordo?”


“Eu fiz-te sentir humana quando mais ninguém o fazia. E o que fizeste? Emagreceste. Ficaste rica. Abriste aquele estúdio ridículo.”


“Então isto tudo,” disse lentamente, “o painel, as legendas, teres-me excluído, foi para me empurrares outra vez para onde querias?”


“Tu eras mais fácil de amar quando precisavas de mim.”


O silêncio foi enorme.


“Alison,” disse, “eu passei 20 anos a acreditar que tu eras a única coisa boa daquela época. Afinal, a coisa boa era eu. Eu é que não conseguia ver.”


Atrás dela, alguém tirou a primeira fotografia do painel.


Depois outra.


Em poucos segundos, o painel inteiro começou a ser desmontado.


Sem discursos.


Só pessoas a decidirem não participar.


Virei-me para sair.


“Não te atrevas a ir embora,” gritou Alison.


“Já fui.”


Conduzi para casa com as janelas abertas, música baixa, e algo leve a desfazer-se no meu peito.


Pela primeira vez em duas décadas, a rapariga nessas fotos parecia uma estranha que eu finalmente tinha perdoado.


E amanhã, eu sabia exatamente quem queria ser.