Como enfermeira, fui designada para cuidar da mulher que tornou meus anos de adolescência um verdadeiro inferno — quando ela se recuperou, disse-me: “Você deveria pedir demissão imediatamente.”

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Entrei no quarto do hospital e dei de cara com a mulher que tinha tornado a minha adolescência insuportável. Mantive o profissionalismo, não importa o que ela dissesse, mas no dia em que teve alta, ela olhou para mim e disse para eu me demitir. O que ela disse a seguir ameaçou destruir a minha vida.


Congelei no momento em que vi o nome da minha antiga agressora no prontuário.


Margaret.


Por um instante, fiquei parada do lado de fora do quarto 304, com a prancheta na mão, tentando não desabar no meio da ala médico-cirúrgica às 7h12 da manhã.


Já tinham passado vinte e cinco anos desde o liceu, mas certas coisas nunca nos abandonam.


Disse a mim mesma que não podia ser ela.


Se fosse… aquele turno ia ser muito mais difícil do que eu podia suportar.


Então entrei.


Ela estava sentada na cama, com uma bata hospitalar azul-clara, uma perna cruzada sobre a outra, o telemóvel na mão e os óculos de leitura a deslizar pelo nariz.


Tinha envelhecido, mas era claramente a mesma Margaret que tornou a minha adolescência miserável.


— Bom dia — disse eu, porque já fazia aquilo há 16 anos, e o automatismo profissional é uma bênção. — Sou a sua enfermeira hoje. O meu nome é Lena.


Ela mal levantou os olhos.


— Finalmente. Estava à espera há imenso tempo.


O mesmo tom cortante de sempre.


E algo em mim percebeu que a única forma de sobreviver a aquilo era se ela nunca descobrisse quem eu era.


Devia ter sido fácil.


Naquela altura, Margaret era o tipo de rapariga que todos temiam. Dominava os corredores da escola com o cabelo perfeito, a roupa perfeita e a vida perfeita.


Eu era a rapariga que mantinha os olhos no chão e os livros junto ao peito. A minha mãe limpava casas. O meu pai foi embora quando eu tinha dez anos. Usava roupas de segunda mão e sapatos simples e tinha almoço gratuito na escola.


Pessoas como ela costumam esquecer pessoas como eu.


Mas pessoas como eu lembram-se de tudo.


Ela escondia a minha mochila, espalhava rumores e fazia comentários cruéis alto o suficiente para todos ouvirem.


— Compraste essa camisola no escuro?


— És tão calada. É assustador.


— Alguém pode dizer à Lena para não ficar tão perto? Ela cheira a biblioteca velha.


As pessoas começaram a evitar sentar-se perto de mim por causa do que ELA dizia. Lembro-me de almoçar na casa de banho só para aguentar o dia.


E agora ela estava ali, sob os meus cuidados.


Verifiquei a bomba de soro, perguntei sobre a dor e tirei os sinais vitais.


Respondia em frases curtas, como se cada palavra lhe custasse algo. Mantive a voz estável e as mãos firmes.


Comecei a acreditar que iria correr tudo bem.


Mas no terceiro dia, ela começou a observar-me como um falcão.


Estava a passar os medicamentos pelo scanner quando ela me olhou por mais tempo do que o habitual.


— Espera — disse ela, com um sorriso. — Eu conheço-te?


O meu estômago afundou.


Encostei o scanner ao computador.


— Não me parece.


Mas já era tarde. Vi o reconhecimento espalhar-se pelo rosto dela.


— Meu Deus… — O sorriso dela abriu-se num prazer cruel. — És TU. Lena da biblioteca.


De repente, eu tinha 16 anos outra vez, parada na cantina a olhar para o almoço que ela tinha acabado de me tirar das mãos, enquanto os amigos dela riam.


E aquele sorriso dizia-me que ela não tinha mudado nada.


Não ia deixar aquilo passar.


Não respondi. Apenas estendi o copo dos medicamentos.


— Estes são os seus comprimidos da manhã.


Ela tomou-os sem desviar os olhos de mim.


— Então tornaste-te enfermeira, não foi? Estranho… passavas tanto tempo nos livros. Porque não médica? Não tinhas dinheiro para a faculdade, Lena?


Eu odiava como ela ainda conseguia, depois de tantos anos, acertar em pontos sensíveis com tão poucas palavras.


— E a tua vida pessoal? — continuou, observando as minhas mãos. — Marido, filhos?


Outra pergunta que eu não queria responder, mas teria de dizer alguma coisa.


— Tenho três filhos — respondi. Não ia de forma alguma contar que estava a trabalhar até ao limite para os criar sozinha depois de o meu marido me ter deixado pela colega mais nova no ano anterior. — E tu?


— Tenho uma filha. Acho que ter mais do que um filho divide demasiado a atenção. Torna mais difícil ser realmente uma boa mãe.


Sorriu para mim.


Tive vontade de lhe atirar a prancheta à cara, mas em vez disso sorri de volta e saí o mais depressa que pude.


Depois disso, tornou-se um jogo para ela.



Pequenos comentários. Pequenos cortes.


Quando ajeitava o travesseiro dela, ela dizia: — Pode não puxar assim? — mesmo eu mal tendo encostado.


Quando limpava o soro, ela se encolhia antes mesmo de eu conectar a seringa e suspirava como se eu estivesse a ser brusca de propósito.


Se havia mais alguém no quarto, ela virava uma doçura.


Assim que a porta fechava, voltava aquele mesmo olhar de crueldade preguiçosa.


E comecei a perceber — não era aleatório. Ela estava a construir algo.


Uma tarde, um técnico de enfermagem chamado Marcus entrou para medir a glicemia dela.


Assim que ele saiu, ela olhou para mim e disse: — Essa cor de uniforme não te favorece nada.


Continuei a fazer as anotações no registo.


— Precisa de mais alguma coisa?


— Sempre me perguntei o que aconteceu contigo.


— Sério? Eu não penso muito no liceu.


Ela soltou uma risada curta.


— Pois… eu também não pensaria se fosse a Lena da biblioteca.


Aquele comentário atingiu em cheio, porque era sempre a mesma estratégia: dizer algo pequeno o suficiente para não se provar dano, mas suficientemente cruel para ficar a doer o dia inteiro.


Comecei a temer o quarto 304.


Nunca contei a ninguém que a conhecia.


Parecia infantil de alguma forma, como se a dor do liceu devesse ter prazo de validade. Eu tinha 41 anos. Tinha uma casa para pagar, joelhos ruins e um filho na universidade. Como é que uma mulher ainda conseguia fazer-me tremer as mãos?


Comecei a contar os dias até à alta dela.


Quando finalmente chegou, percebi que não me ia livrar da Margaret tão facilmente.


Ao meio-dia, o Dr. Stevens parou-me à porta do armazém.


— Olá, Lena — disse ele. — Queria que tratasses pessoalmente da alta do quarto 304.


Pisquei os olhos.


— Claro.


— Avise-me antes de entrares.


Era um pedido um pouco fora do normal, mas algo no tom dele deixou-me inquieta.


Naquele momento soube que aquilo não era uma alta comum.


— Claro — repeti.


Quando bati à porta e entrei por volta das três, ela já estava vestida, maquilhada, com a mala pronta e o processo de alta sobre a mesa.


A esperar.


— Ora bem — disse ela. — Mesmo a tempo.


Forcei um sorriso e levantei a pasta.


— Vamos rever as instruções de alta.


Ela cruzou as mãos no colo.


— Devias pedir demissão, Lena. Imediatamente.


Por um segundo, achei mesmo que tinha ouvido mal.


— Desculpe, o quê?


— Devias pedir demissão — repetiu. — Já falei com o médico.


Os meus dedos apertaram o papel.


— Sobre o quê?


Ela inclinou a cabeça, como se estivesse a explicar o óbvio.


— Sobre a forma como me tens tratado, claro.


— Isso não é verdade. Eu tratei-te sempre de forma profissional.


— Tens sido brusca. Mais agressiva do que o necessário, demoras quando eu chamo, e o teu tom comigo… — abanou a cabeça com falsa tristeza. — Usaste a tua posição para me maltratar por causa do passado.


Não conseguia acreditar no que estava a ouvir.


— Isso não é verdade, Margaret.


Ela sorriu.


— É verdade se eu disser que é. Estas coisas são levadas a sério. Tu sabes disso.


Por um segundo horrível, voltei a ter 16 anos, e ela estava outra vez a sair ilesa enquanto eu ficava com a culpa no chão da cantina.


Depois recostou-se e cruzou as pernas.


— Estou a dar-te uma oportunidade. Demite-te em silêncio e isto não vai ficar complicado.


Por um instante, pensei que ela pudesse mesmo conseguir. Que eu perderia o emprego, que os meus três filhos acabariam prejudicados por causa da maldade dela.


Então ouvi uma voz atrás de mim.


— Isso não será necessário.


Virei-me tão depressa que quase deixei cair a pasta.


O Dr. Stevens estava na porta.


Margaret piscou os olhos.


— Doutor, eu estava apenas a explicar—


— Eu ouvi.


Entrou no quarto e olhou para ela, não para mim.


— Levou uma preocupação sobre a conduta da sua enfermeira. Quis perceber melhor.


Margaret endireitou-se.


— Sim, exatamente. Eu senti—


— Então pedi à enfermeira Lena que fizesse a sua alta enquanto eu observava. Estive do lado de fora da porta o tempo todo, e o que vi não sustenta a sua queixa.


A boca dela abriu. Depois fechou.


E nesse momento, outra pessoa entrou no quarto atrás do Dr. Stevens.



— “Mãe? Eu estou aqui…”


A mulher parou a meio da frase ao ver todos nós.


— O que está a acontecer aqui? Está tudo bem?


Margaret recuperou primeiro, ou tentou.


— Nada, querida. Só um mal-entendido.


O Dr. Stevens não se mexeu.


— A sua mãe levantou uma queixa séria contra uma funcionária. Não encontrei qualquer problema na assistência prestada. No entanto, observei um comportamento inapropriado dirigido à nossa enfermeira.


A filha olhou para mim. Depois os olhos desceram até ao meu crachá e ela arregalou-os.


— Mãe? — disse ela, agora mais baixo. — Ele está a falar da mulher de que me falaste? A que estudou contigo no liceu?


Pela primeira vez, vi a expressão de Margaret mudar de um controlo arrogante para algo parecido com medo.


— Então eu tinha razão — disse o Dr. Stevens. — Isto era pessoal.


Margaret apertou os lábios e não respondeu.


A filha corou.


— Quer que eu retire essa queixa e evite mais embaraço? — perguntou o Dr. Stevens.


— Por favor — disse a filha rapidamente. Depois virou-se para mim. — E peço desculpa por qualquer problema que a minha mãe tenha causado.


Inclinei a cabeça. Não era o mesmo que um pedido de desculpa vindo de Margaret, mas era alguma coisa.


Terminei o processo de alta com a filha de Margaret presente. O coração ainda me batia depressa, mas a minha voz manteve-se firme enquanto revia a medicação e as orientações de seguimento.


Margaret ficou em silêncio. Nem sequer sorriu de lado.


Quando terminei, estendi os papéis.


— Está liberada para alta.


Margaret levantou-se e pegou nos documentos. Os nossos olhares cruzaram-se e, por um momento, pensei que ela ainda fosse dizer algo.


Mas a filha encaminhou-a para fora.


O Dr. Stevens virou-se para mim.


— Está bem?


Assenti uma vez, mas os olhos ardiam.


— Vou ficar.


Ele não insistiu.


— Desde que entrou no turno, foi profissional. Quis deixar isso registado.


Engoli em seco.


— Obrigada.


Depois de ele sair, fiquei sentada na cadeira junto à janela durante alguns minutos.


Olhei para a cama vazia e pensei em quanto da minha vida passei a diminuir-me para que outros se sentissem confortáveis. Na escola. No trabalho. Nas amizades. No meu casamento, até.


— Nunca mais — sussurrei. — Ninguém vai alimentar o próprio ego à custa de me fazer sentir pequena. Nunca mais.


Depois endireitei o uniforme e fui para o próximo paciente.


Margaret tinha ido embora, de preferência para sempre desta vez, mas se algum dia voltasse a cruzar-se comigo, eu tinha uma coisa clara.


Ela não me ia voltar a esmagar. Talvez tentasse, mas eu não deixaria.